Varejo terá fim de ano de ‘crescimento pífio’, próximo a 0%, segundo Ibevar

Contexto Econômico Atual do Varejo

O mercado varejista brasileiro tem enfrentado desafios significativos nos últimos anos. A economia nacional passou por períodos de recessão e recuperação lenta, o que impactou diretamente o comportamento de consumo das famílias. A inflação crescente, taxas de juros elevadas e o alto nível de endividamento tornaram-se barreiras para o crescimento do varejo. Esse cenário resultou em um desempenho mais modesto nas vendas, especialmente no que diz respeito aos produtos e serviços não essenciais.

Nos últimos meses de 2025, o varejo ficou marcado por um padrão de crescimento pífio, como indicado pelas projeções do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar). Com uma expectativa de crescimento quase nula para os próximos meses, o foco é compreender as razões por trás desse estado e as suas implicações para o futuro do comércio.

Analistas apontam que o comportamento do consumidor está mudando, com uma tendência crescente em priorizar necessidades básicas em detrimento de produtos supérfluos. O desemprego, embora tenha apresentado certa queda, ainda afeta a renda e a confiança do consumidor, resultando em um ambiente de consumo cauteloso. Para sobreviver a esse cenário, as empresas varejistas precisam se reinventar, adotando estratégias flexíveis e focadas em atender às novas demandas do público.

crescimento pífio no varejo

Projeções de Vendas para Novembro a Janeiro

As projeções de vendas elaboradas pelo Ibevar demostraram que o varejo restrito deve experimentar uma decrescente na performance, com estimativas de crescimento de -0,01% para novembro e -0,04% para dezembro de 2025. Esse período, que tradicionalmente é esperado como uma fase de crescimento impulsionado pelas compras de fim de ano, não deverá apresentar o entusiasmo esperado. Essas taxas são alarmantes, dado que esse é um dos períodos mais críticos do comércio, onde expectativas de vendas e lucro costumam ser impulsionadas pelo aumento do consumo.

Por outro lado, o varejo ampliado, que inclui setores como veículos e construção, deverá ter um crescimento de 0,42% em novembro, mas também enfrentará quedas em dezembro, com uma queda de -0,02%, e um lento crescimento de 0,61% em janeiro. Esse contraste nas projeções entre o varejo restrito e ampliado destaca a natureza fragmentada do consumo e os diferentes ritmos que os setores estão enfrentando.

Com a gradual recuperação econômica, espera-se que as vendas voltem a um crescimento modesto a longo prazo, mas os números atuais refletem um consumidor ainda cauteloso, que prefere poupar ao invés de gastar. A implementação de estratégias de promoção e marketing mais eficazes será fundamental para revigorar o setor e estimular as compras durante esses meses críticos.

Impactos do Emprego e Consumo Familiar

A relação entre emprego e consumo familiar é um dos pilares que sustentam a economia. Com a taxa de desemprego ainda elevada, o poder aquisitivo das famílias é substancialmente afetado. Dados recentes indicam que, mesmo com a leve recuperação, o número de famílias com dívidas chegou a 79,5%, e 30,5% delas estão inadimplentes, o que demonstra um enorme desafio para o consumo no varejo. A falta de garantias de que a renda familiar se estabilizará impede os consumidores de fazer investimentos maiores.

Além disso, a pressão do endividamento altera a forma como as famílias lidam com suas despesas mensais. Em vez de gastar em produtos que podem ser considerados não essenciais, muitos consumidores priorizam as compras de itens absolutamente necessários. Isso prejudica gravemente os setores do varejo que, em condições normais, se beneficiariam de um aumento no consumo na temporada de festas. Os setores de vestuário, por exemplo, são particularmente afetados, já que se trata de uma categoria mais suscetível a cortes de gastos.

Portanto, a capacidade de resposta das empresas em oferecer alternativas atrativas para os consumidores será essencial durante este período. O aumento de promoções, ofertas, e a criação de sistemas de pagamento mais acessíveis podem ser algumas das estratégias adotadas para estimular a compra e minimizar os impactos do cenário de incerteza econômica e alta inadimplência.

Varejo Restrito versus Varejo Ampliado

O conceito de varejo restrito e varejo ampliado é fundamental para compreender o desempenho do setor. O varejo restrito abrange segmentos que incluem supermercados, vestuário, e produtos farmacêuticos, enquanto o varejo ampliado inclui, além desses, veículos, motos, partes e peças, e material de construção. Os dados mais recentes mostram que, enquanto o varejo restrito tem mostrado um crescimento modesto, o varejo ampliado enfrenta um desempenho negativo.

Esse contraste nas projeções indica uma possível mudança nos hábitos de consumo, onde as famílias preferem investir sua renda em itens essenciais e evitar gastos maiores com produtos de maior valor agregado. No varejo ampliado, as vendas de itens como veículos e produtos de construção não estão revigoradas, sugerindo que há uma hesitação geral do consumidor em realizar compras de maior quanto.

A diferença no comportamento dos consumidores pode ser atribuída a um medo subjacente de endividamento e à necessidade de contenção de despesas. O varejo, portanto, deve buscar formas de inovar e se adaptar a essa nova realidade, explorando propostas de valor e promoções que atendam às expectativas e necessidades dos consumidores, reforçando o vínculo com os clientes.

Desempenho nas Vendas de Necessidades Básicas

O setor de varejo que abrange as necessidades básicas tem conseguido manter um desempenho estabilizado, mesmo em meio aos desafios econômicos. Esse desempenho é destacado nas categorias que incluem alimentos e produtos de higiene pessoal. Em novembro e dezembro, as projeções indicaram um crescimento modesto em comparação ao mesmo período do ano anterior, enfatizando que, apesar da desaceleração geral do mercado, as necessidades básicas não são altamente afetadas por esse fenômeno.

A situação econômica atual reforça a importância dos produtos básicos nas compras do dia a dia. Enquanto os consumidores podem cortar gastos em itens de moda e entretenimento, eles continuam a priorizar os gastos com alimentos e serviços essenciais. Essa é uma tendência observada num contexto em que o consumidor se torna mais consciente em relação ao que compra, focando na utilização do orçamento familiar de maneira mais cautelosa.

Além disso, muitos supermercados e redes varejistas têm adotado estratégias de ampliação de suas linhas de produtos básicos, fazendo com que as vendas permaneçam favoráveis. Produtos a granel, promoções de combos e incentivos de fidelidade se mostraram eficazes em manter o fluxo de clientes nas lojas, e o comércio eletrônico tem contribuído para essa tendência, facilitando ainda mais o acesso às necessidades diárias.

Consequências da Inadimplência Familiar

A inadimplência familiar é uma das preocupações mais críticas no cenário econômico atual. Com 79,5% das famílias apresentando dívidas e 30,5% delas referentes a contas em atraso, o efeito desse fenômeno no varejo é profundo e duradouro. A inadimplência não só restringe o acesso ao consumo, mas também contribui para uma onda de baixa confiança entre as famílias, impactando negativamente suas decisões de compra.

Ademais, a inadimplência gera um ciclo vicioso que afeta a economia como um todo. Famílias inadimplentes tendem a reduzir ainda mais seus gastos, o que afeta as vendas em varejo, levando a um crescimento contínuo do número de lojas que precisam fechar as portas. Este cenário pode resultar em cortes de empregos no setor e uma maior fragilidade no mercado de trabalho, exacerbando as dificuldades financeiras de muitas famílias.

Assim, as empresas no setor varejista devem estar cientes das realidades em torno da inadimplência e buscar formatos de solução que facilitem o pagamento, como acordos de refinanciamento de dívidas ou parcerias com instituições financeiras para oferecer suporte aos consumidores. Criar laços de confiança e transparência pode ajudar a impulsionar o consumo a médio e longo prazo.

Expectativas para o Futuro do Varejo

As expectativas para o futuro do varejo permanecem incertas, mas algumas tendências promissoras surgem. Com a gradual recuperação da economia e a estabilidade prometida nas taxas de juros, o setor espera ver uma leve melhora nas vendas em um horizonte de 12 meses. A demanda reprimida acumulada durante períodos de recuo pode resultar em um aumento significativo no consumo quando as condições se estabilizarem.

Além disso, a digitalização do varejo deve continuar a desempenhar um papel crucial na recuperação do setor. O crescimento das compras online e a transição para modelos de comércio eletrônico se intensificaram durante a pandemia e devem permanecer, impulsionando uma maior flexibilidade e eficiência. Os varejistas que investirem em tecnologia, experiência do cliente e em um modelo de omnichannel estarão mais bem posicionados para atender as novas necessidades do consumidor.

Ainda, a pesquisa do Ibevar indica que as empresas que se adaptam rapidamente às mudanças do cenário econômico têm mais chances de sair na frente. Portanto, é essencial manter um diálogo contínuo com os consumidores para entender suas necessidades e preocupações, ajustando as estratégias de acordo.

Análise das Taxas de Juros e Seu Efeito

As taxas de juros têm um papel fundamental na dinâmica do consumo e no desempenho do varejo. Com juros altos, o custo do crédito aumenta, desencorajando os consumidores a adquirir bens de maior valor, como veículos e eletrodomésticos. Com as projeções de que as taxas continuarão elevadas, as vendas em setores dependentes do crédito estão suscetíveis a serem prejudicadas.

As taxas de juros elevadas também impactam o custo das operações para os varejistas. O aumento do endividamento das empresas para financiar suas operações pode resultar em custos mais elevados, que inevitavelmente se refletem nos preços dos produtos. Neste contexto, a comunicação com os consumidores torna-se essencial, pois os varejistas precisam explicar e justificar esses aumentos.

Por outro lado, uma eventual redução nas taxas de juros pode abrir espaço para um aumento no consumo. Isso ocorre porque os consumidores se sentirão mais confortáveis em contrair dívidas e comprar produtos que muitas vezes requerem financiamento. Portanto, acompanhar as decisões do Banco Central e ajustes nas políticas monetárias será essencial para a previsão do desempenho do varejo nos próximos trimestres.

Comparação com Anos Anteriores

Ao comparar o desempenho do varejo com anos anteriores, podemos observar que a tendência de crescimento pífio não é uma ocorrência isolada. O varejo tem se comportado de maneira semelhante durante períodos de recessão econômica, especialmente em 2015 e 2016. As taxas de crescimento do consumo caíram significativamente em ambos os anos, resultando em um aumento no número de estabelecimentos fechando as portas e uma maior pressão sobre o emprego.

No entanto, uma diferença notável ocorre entre as plantações de necessidades básicas e produtos supérfluos. Enquanto as vendas de alimentos e produtos essenciais tendem a permanecer estáveis, as categorias vinculadas a bens de consumo discricionário, como vestuário e calçados, mostram maior vulnerabilidade a mudanças econômicas. Essa diferença ressalta a necessidade do setor varejista de reavaliar suas estratégias de marketing e posicionamento de produto.

A capacidade de aprender com as reações do consumidor durante esses períodos ajudará os varejistas a se prepararem melhor para desafios futuros. As empresas que têm se mostrado mais adaptáveis e inovadoras, incorporando dados e tendências do comportamento do consumidor, têm tido sucesso em enfrentar as adversidades da economia.

Importância do Planejamento para o Varejo

O planejamento é um elemento crítico para a saúde financeira e a capacidade de recuperação do varejo. Empresas que abordam suas operações com uma mentalidade de longo prazo têm mais chances de prosperar em um ambiente econômico desafiador. Isso envolve a definição de metas claras, a criação de cenários variados e o desenvolvimento de estratégias que podem ser ajustadas conforme as condições do mercado são alteradas.

Além disso, a implementação de análises contínuas de dados ajudará os varejistas a monitorarem tendências de consumo em tempo real, permitindo que respondam rapidamente a mudanças. Essa flexibilidade é fundamental para a sustentabilidade do varejo.

À medida que navegamos em um ambiente volátil, a formulação de um planejamento sólido, que considere não apenas o presente, mas também o futuro, será definitiva para a recuperação eficaz e o crescimento no setor. A capacidade de se adaptar e inovar será o diferencial para o sucesso das empresas varejistas no Brasil.