ARTE INSPIRADORA | Papéis incríveis pelo artista Luiz Fernando Machado

Por Deborah Peleias

Com um toque mágico, o artista gráfico Luiz Fernando Machado transforma simples papéis em obras de arte.

Por Deborah Peleias
Fotos: Tharlys São Pedro

Todo mundo tem um amigo que um dia chegou e disse “vou começar a fazer tal coisa para vender” e a moçada pensou “o cara tá viajando…”. Pois bem, tenho um amigo que vivenciou essa situação, e confesso que na época, apesar de admirar o trabalho de sua nova ideia, tive dúvidas se daria certo ou não. Por sorte do meu amigo, eu estava errada, e como!

E essa história começou no início dos anos 1990. Eu morava em São Paulo e meu amigo foi fazer Letras na USP – grego e latim. Em um anúncio de jornal, ele viu que seria realizado um curso de encadernação no Liceu de Artes e Ofícios. Foi lá, se inscreveu, aprendeu a técnica e tudo em sua vida mudou…

Luiz Fernando Machado é o nome do cara que deu um up no conceito de papelaria, pelo menos nos últimos anos. Ao entrar em seu ateliê na Vila Madalena (o Atelier Luiz Fernando Machado), em São Paulo, a sensação que se tem é a de adentrar em um cenário imaginado por Tim Burton às avessas: muitas cores, uma luz calma, bonecos de madeira, livros antigos, canetas, lápis, blocos, agendas, porta-alguma-coisa, leques, móbiles chineses, sombrinhas, tudo muito bem distribuído e iluminado de uma forma que é quase impossível resistir a ter cada um dos objetos.

O fio condutor de sua papelaria são papéis marmorizados, técnica secular de pintura que consiste na aplicação de tintas sobre uma superfície líquida, na qual são feitos os desenhos, que posteriormente são transferidos para o papel, como uma impressão, que utiliza na restauração de livros e na criação de blocos, cadernos, agendas, lápis (isso mesmo, lápis), álbuns de fotografia e o que sua imaginação mandar.

Luiz Fernando se interessou pela técnica ainda no Liceu de Artes e Ofícios, mas não encontrava quem o ensinasse. Então, procurou o professor rio-clarense de artes plásticas Denizar Machado, que lhe emprestou um livro com receita de água com farinha, que era para fazer o banho, e tinta óleo. “Minhas primeiras experiências com marmorização foram assim”, conta Luiz Fernando. “Depois aprendi com uma professora brasileira que morava nos Estados Unidos que deu um curso em São Paulo. Foi, então, que conheci as tintas corretas e o uso da alga marinha, que vai na base líquida para a impressão no papel.”

Enquanto estudava na USP, Luiz Fernando criava seus papéis em um ateliê improvisado na casa dos pais em Rio Claro por falta de espaço na república que morava. Com eles, montava cadernos e agendas, e depois vendia para amigos e na faculdade. Esse foi o início da ideia que poucos, ou quase ninguém, acreditaram e que contei no começo deste texto.

A vontade de aperfeiçoar a técnica e seu talento para a marmorização o levou a participar de vários cursos no Brasil e no exterior, e chegou a ir para os Estados Unidos para conhecer alguns marmorizadores no Novo México e em São Francisco, onde encontrou uma professora que estava escrevendo um livro sobre marmorização e incluiu os trabalhos de Luiz Fernando, o que impulsionou o seu recente negócio. De volta para o Brasil, iniciou o trabalho de encadernação, restauração de livros, brindes e papelaria customizados, que culminaram no próspero ateliê que possui hoje.

No segmento da restauração de livros, Luiz Fernando restaurou algumas obras de literatura da biblioteca de José Mindlin, bibliófilo, além de repórter, advogado, empresário e escritor, que possuiu a maior biblioteca particular brasileira, e que após seu falecimento, em 2010, foi transferida para a USP. “É como se fosse uma chancela, cuidar dos livros de Mindlin”, conta. Mas sua história mais marcante em relação à restauração de livros aconteceu quando um conde grego o contratou para restaurar os livros de sua biblioteca na ilha de Corfu. A princípio, o conde, que era casado com uma Matarazzo, queria que Luiz Fernando se mudasse para a Grécia, mas se convenceu da impossibilidade e aceitou enviar seus livros via aérea, por lotes para o restauro em São Paulo. “Com tanta gente competente restaurando livros na Europa não entendo porque o conde me escolheu”, diz Luiz Fernando ainda admirado pela experiência.

Entre dois amores, pode-se dizer que Luiz Fernando vive, mas a marmorização é, sem dúvida, o afeto que lhe cabe. Sua criação impressiona pela perfeição do desenho, quase impossível de ser duplicado. A técnica é a mesma desde o princípio, mas a modernidade traz desafios que desconhecemos quando se trata de arte: a qualidade das tintas não é a mesma. “Uso uma marca de tinta francesa que é fabricada na China. Ela ainda é boa, mas é preciso colocar mais pigmentos; ou seja, é preciso se adaptar aos novos tempos.”

O forte do Atelier Luiz Fernando Machado, que existe desde 2000 e hoje conta com 20 funcionários entre produção e administração, é o atendimento corporativo e para lojistas, para o qual desenvolve uma linha de produtos com customização de estampas para cadernos, álbuns, caixas, conjuntos de escritório, agendas, livros para assinaturas, em uma média de 800 itens feitos artesanalmente. “O mercado hoje quer novidade, e se você não apresentar nada novo, não sobrevive”, Luiz Fernando explica o porquê do número alto (800!) de itens produzidos.

Mas a marmorização, que é o grande diferencial de seus produtos, é feita apenas por ele. E em seu canto no ateliê, os desenhos nascem do movimento de suas mãos, que parecem ser comandadas por imagens oníricas de um talento intraduzível.

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