HISTÓRIAS DA VIDA | Um sonho possível contado para nossas leitoras da AMORA!

Por Deborah Peleias

O assunto é polêmico e, no entanto, a “barriga solidária”, como é chamado o processo de gestação de substituição, é muitas vezes a única forma de um casal realizar o sonho de ter filhos. Nossos leitores conhecerão a história de Kátia Marques, 41 anos, e Bruno Dezan, 39 anos, que viram seu sonho de constituir uma família desmoronar ao perderem trigêmeos. O sonho só foi possível porque houve um anjo se ofereceu para gerar o bebê que o casal tanto desejava. Esta emocionante história é contada nesta entrevista com Kátia, uma mulher finalmente realizada. Emocione-se!

 

Por Deborah Peleias

Fale sobre as dificuldades de ter filhos prematuros.

Depois de um tempo juntos, decidimos ter filhos e para isso descobrimos que precisaríamos nos submeter à uma FIV (fertilização in vitro). Depois de um ano de exames não favoráveis em outro estado, decidimos procurar o Dr. Davi Buttros, de Rio Claro. E para nossa alegria, os exames não eram tão ruins assim.

Em três meses de ajuste de ciclo, estímulos hormonais para produção de óvulos, a fertilização e a transferência de embriões, recebemos o nosso positivo. Dos  quatro embriões que obtivemos dessa FIV, dois foram transferidos e, para nossa a surpresa, se “transformaram” em três bebês. A gestação não foi das mais tranquilas, tive todos os sintomas possíveis, três vezes mais intensos, e muito, muito medo do que nos esperava…

Com 22 semanas, perdi o meu tampão e apresentava contrações. Fiquei internada por três dias recebendo Inibina intravenosa para evitar a dilatação. Mas não foi suficiente, e três dias depois, 5 horas após ter alta, entrei em trabalho de parto com contrações ritmadas e voltei para o hospital. Os meninos (Theo, Felipe e Matheus) nasceram de parto normal, em uma maca na emergência pediátrica, com 22 semanas e 6 dias, no dia 11 de maio de 2017, pesando entre 430 e 800 g e seguiram direto para a UTI neonatal.

A minha placenta aderiu ao útero, impedindo que o mesmo voltasse ao tamanho normal. Enquanto o médico tentava tirar essa aderência, perdi muito sangue, e algumas horas depois comecei a entrar em choque. Para me salvar, foi preciso retirar o útero. Muitos detalhes tornam essa história mais difícil e um pouco revoltante, mas escolhi deixar isso no passado, perdoar os erros e aceitar o meu destino.

Os meus meninos Theo e Matheus não resistiram à prematuridade e após um sangramento no pulmão, ambos nos deixaram com apenas dois dias de vida. Enterrei meus filhos em pleno Dias das Mães. Achei que não sobreviveria a esse dia.

De luto por meus filhos, de luto por meu útero e me recuperando de uma histerectomia abdominal parcial, tive de seguir lutando pelo filho que também lutava pela vida na UTI, Felipe. Foram meses cansativos, física e emocionalmente. Felipe teve um sangramento no cérebro devido ao seu nascimento prematuro e isso lhe trouxe a hidrocefalia, seu grande inimigo na luta pela vida. Entre muitos problemas que a prematuridade traz, Felipe foi superando um por um…

Foram mais de 90 transfusões de sangue, três meses entubado, infecções, perda de peso, dificuldade para respirar sozinho, descolamento da retina, perdendo assim a visão e muitos, muitos outros problemas diários, muitos vencidos, superados, conformados… mas não com a hidrocefalia. Quase sete meses depois, em sua quinta cirurgia na cabeça, Felipe descansou e nos deixou.

Eu sempre soube que seria uma luta minuto a minuto por sua vida. Chorei incontáveis vezes, mas nunca, nunca desisti, assim como ele.

Conte-nos porque optou por uma “barriga solidária”.

Após perder o Felipe, perdemos também o nosso chão. E o “destino” de não poder mais ter filhos ajudava a nos matar cada vez mais (se é que isso é possível). Sair de casa se tornou uma tortura. Ver crianças e famílias completas também. Nos machucava muito. Por um tempo, pensar em adoção ou mesmo em útero de substituição era algo completamente fora de cogitação.

Como tínhamos dois embriões congelados, era um desaforo não “usá-los”, o que descartava a adoção. Mas eu também não conseguia pensar na possibilidade de algo parecido com o que passei acontecesse com uma terceira pessoa, que viesse a gerar o nosso embrião. E não queria destruir a vida de ninguém. Ou seja, queria um milagre impossível de acontecer, já que nenhuma das opções que tinha me cabiam.

Eu estava de luto. Essa era a verdade.

Um dia, compartilhei uma campanha sobre barriga solidária no meu perfil do Instagram, o mesmo onde contei meu dia a dia na gravidez dos trigêmeos e também tudo o que aconteceu desde a minha internação até a luta do Felipe e a vida após perdê-lo.

Mas compartilhei apenas para ajudar a campanha. A minha cunhada viu e achou que seria uma chance de se oferecer para gerar o nosso bebê. Ela me mandou uma mensagem, mas eu ainda não estava pronta. Achei que nunca estaria. Agradeci e recusei.

Contudo, a vida sem filhos era muito mais difícil do que enfrentar os medos e passar por cima dos traumas. Quatro meses depois perguntei se ela ainda estava disposta. E, então, demos início ao processo todo. Entendi que o que aconteceu com a gente não tinha nada a ver com o tratamento. E que tinha tudo para dar certo.

Qual o maior aprendizado desta sua experiência com a gestação dos trigêmeos e depois com a barriga solidária da sua cunhada, a Laiz.

A minha experiência como mãe de UTI foi intensa… Lá, aprendi a ser mãe na marra, aquela mãe que briga, luta, protege, se doa por inteiro. E tudo, tudo valeu a pena, e faria de novo e mais, muito mais. Mas perder os meninos me transformou também, me fez ver a fé de outra maneira, me conectou com Deus de uma forma única. E por mais absurdo que pareça, sinto-me escolhida. Consegui ver o lado bom, ver que Deus não me tirou os meus filhos, mas permitiu que eu os vivesse e assim me transformou para sempre. Me preparou para ser a mãe do Caio, o meu quarto milagre.

Durante a gestação do Caio, ainda tinha mais para aprender… e mostrar tudo o que aprendi antes dele com os meninos. Foi a prova de fogo. Paciência e controle emocional. Precisei superar a ansiedade, os medos e traumas e também entender que detalhes como sentir o Caio mexer, tirar foto da barriga, conversar com ele eram apenas detalhes, e que o fato de não ser como sempre sonhei não significava que era pior ou ruim, o principal estava a caminho. O milagre era muito maior do que os detalhes.

A Laiz é muito tranquila, sempre esteve disponível para todos os repetitivos exames, aceitou de coração o obstetra que me deixava mais segura, e sempre esteve aberta para qualquer pedido.

Como está a saúde do Caio e o que você espera para o futuro da sua família.

O Caio nasceu de parto cesariano, com 37 semanas de gestação, com 2,730 kg e 46 cm, às 18h29h de 13 de agosto de 2019, e com ele eu renasci! O Caio é perfeito no sentido mais amplo da palavra. Eu vejo Deus nele o tempo todo, em muitos detalhes.

O que esperar para minha família? O principal nós já temos. O que vier agora é lucro! A nossa história não é só nossa. Com o passar da gestação e durante toda a luta do Felipe, escolhi dividir isso com as pessoas dando início à uma corrente enorme de fé e boas energias nas redes sociais por meio do perfil dos meninos no Instagram (@trigemeosdakah). Eram muitas e muitas pessoas de todos os lugares do país e até de fora, vivendo essa história conosco. A morte dos meninos foi chorada por muitos, assim como a vinda do Caio.

A nossa história reafirmou a nossa fé, não só em Deus, mas no ser humano. Somos infinitamente abençoados.

Quais conselhos você dá para as futuras mamães.

Meu conselho? Os sonhos existem para serem realizados. É clichê? É, mas é a verdade. Se conformar e viver infeliz ou lutar até conseguir? Eu preferi lutar! Graças a Deus tenho ao meu lado o melhor exército.

O anjo Laiz

Laiz Fernanda Dezan, de 31 anos, é professora de educação infantil. Casada com Wendel Antonio dos Santos, tem um filho, Murilo Dezan dos Santos, de 3 anos de idade. Ela foi o anjo enviado para salvar Kátia Marques do abismo da tristeza. Laiz conta que após a perda dos trigêmeos, e diante de tanto sofrimento, viu a possibilidade de fazer alguma coisa para amenizar o sofrimento de todos que vivenciaram a perda de Theo, Mateus e Felipe. “Queria poder ver o sorriso no rosto de Kátia e Bruno novamente, que havia ido embora com os meninos.”

Ao decidir ser pelo processo de gestação por substituição, Laiz conta que uma avalanche de sentimentos a inundou. “Antes de acontecer a inseminação, ou seja a cada consulta com o médico, realização de exames, sessão com a psicóloga, advogados, vieram a ansiedade, o medo, a incerteza e ao mesmo tempo a alegria, a felicidade. A expectativa era muito grande, mas que se foi no dia da transferência do embrião. A partir daí, ficou apenas a certeza de que nada seria em vão e logo teríamos o Caio conosco.”

A decisão de Laiz foi acertada e abençoada, pois a gestação foi bem tranquila e ela esteve sempre rodeada pelo carinho dos pais, os cuidados do seu irmão e da cunhada. “Também tive o apoio do meu marido, que foi essencial desde a decisão de gerar o meu sobrinho, além de toda a energia positiva das pessoas que tenho contato no dia a dia.”

E como um anjo, a maior recompensa de Laiz está na felicidade da família que ajudou a se tornar realidade. ”Estamos todos muito felizes com a chegada do Caio, me sinto muito bem em saber que deu tudo certo e poder ver novamente o meu irmão e a minha cunhada transbordando de sentimentos bons. É muito bom saber que tudo é possível quando o amor está em primeiro lugar. Agora, é só curtir o sobrinho”, finaliza Laiz.

Você também vai gostar

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.