GEEKDOM | NÃO QUER DIZER NÃO

Por Deborah Peleias
POR DEBORAH PELEIAS

Costurando o tema do estupro da entrevista com Ana Paula Araújo, nesta coluna indico alguns filmes e séries que engrossam o debate sobre a urgência de as mulheres se unirem contra a cultura machista e a xenofobia do estupro, do feminicídio, da desvalorização profissional contra as mulheres. Violência de gênero, não apenas enquanto ato físico, mas de desvalorização e subjugação social da mulher, é um fenômeno tão antigo quanto a própria humanidade. Se você não acredita, veja estes dados:

  • até 1827, mulheres não podiam frequentar escolas básicas
  • até 1879, mulheres não podiam ingressar no Ensino Superior
  • até 1932, mulheres não podiam votar
  • até 1962, mulheres casadas precisavam de autorização do marido para viajar, abrir conta bancária, ter estabelecimento comercial, trabalhar e receber herança
  • até 1983(!!), mulheres eram impedidas de praticar esportes considerados masculinos, como o futebol

No Brasil, algumas coisas mudaram em favor das mulheres a partir da Constituição de 1988, e a partir da Lei Maria da Penha, de 2006 (gente, não acredito nessas datas! 2006!!!), que propõe penas mais duras aos agressores e estabelece medidas de proteção às mulheres e medidas educativas de prevenção para melhorar a relação entre homens e mulheres (pelo menos é o que intenta a lei, já a realidade é outra…).

(Um parêntesis: você sabia que Maria da Penha, que dá nome à lei, sobreviveu a duas tentativas de feminicídio, ficou paraplégica e lutou 19 anos por justiça sem que seu agressor fosse punido? A luta nem sempre leva à vitória, mas cada batalha vencida conta para salvar a vida das mulheres agredidas.)

Tenho certeza que você ficará indignada como eu ao assistir principalmente as séries Inacreditável, que mostra o descrédito e a culpabilização da vítima pelas forças policiais, e Bom dia Verônica, um trabalho magnífico produzido no Brasil sobre uma mulher em cárcere privado, ou melhor dizendo: vivendo com o inimigo…

Ah, e para completar essas indicações, confira no Youtube os seis episódios da série #ThatsHarassment -Isso é Assédio – criada pelo ator e diretor David Scwimmer, o Ross de Friends, que ganhou destaque mundial pelo trabalho de conscientização e combate ao assédio sexual.

Law & Order: SVU – no Brasil, Lei & Ordem: Unidade de Vítimas Especiais.

Law & Order pode ser antiga, ainda é exibida nos canais fechados e na TV aberta e está na 21ª temporada, ou seja, há 21 anos faz denúncias contra crimes de gênero, o que inclui contra homens. A atriz que interpreta o personagem principal, a Olivia Benson, Mariska Hargitay se identificou tanto com o tema que abriu uma fundação de acolhimento de mulheres e crianças que sofreram abusos sexuais.

Bom dia, Verônica (Netflix)

Excelente série nacional da Netflix que fez sucesso e ganhará uma segunda temporada. O suspense ficcional, adaptado do livro homônimo da criminóloga Ilana Casoy e do escritor Raphael Monte, é protagonizado por Tainá Müller, Eduardo Moscovis e Camila Morgado. A história acompanha a determinada Verônica (Tainá Müller), escrivã da Delegacia de Homicídios de São Paulo, que se envolve em dois casos intrigantes e decide ajudar as vítimas a se libertarem da violência e da injustiça.

Increditável (Netflix)

Esta é “a série” que mostra como investigar crimes sexuais não é prioridade policial. É revoltante, mas necessário assisti-la. A história é a seguinte: nas primeiras horas de11 de agosto de 2008, Marie Adler, de 18 anos, acordou em seu apartamento com um homem mascarado que a amarrou com cadarços de tênis e a estuprou enquanto apontava uma faca para o seu rosto. O trauma indescritível vivido por Marie foi somado a outro, desta vez provocado pela polícia de Lynnwood, cidade do estado de Washington, nos Estados Unidos: ela conta o que aconteceu em detalhes uma primeira vez, e depois pela segunda vez, terceira, quarta. No hospital, durante o exame de corpo de delito, tem de contar novamente e, na delegacia, mais algumas vezes. Exausta e traumatizada, Marie começa a confundir um detalhe e outro, o que, somado com o seu comportamento “incomum” a vítimas de estupro e a sua infância de abuso e maus-tratos, gera a dúvida: ela estaria mentindo sobre o estupro? Apesar das evidências físicas de agressão, Marie é pressionada pela polícia a assinar uma confissão dizendo que inventou tudo, sendo então processada por falso testemunho. Em paralelo, outra história toma curso, cerca de três anos depois: as detetives do Colorado Karen Duvall, da cidade de Golden, e Grace Rasmussen, de Westminster, conduzem investigações sobre um possível estuprador em série – que, ao que tudo indica, é o mesmo que violentou Marie.

Ela é poderosa (Netflix)

Jane Fonda é a poderosa do título – em inglês, Georgia Rules – , mas não se engane: a trama mostra mais um caso de estupro – desta vez por alguém da família – que leva a neta da personagem de Fonda – Rachel, vivida por Lindsey Lohan – a comportamentos destrutivos. Georgia é uma mulher inflexível, que segue regras rígidas de moral, bons costumes e trabalho duro. Juntas, Georgia, Lilly – interpretada por Felicity Huffman – e Rachel descobrem o tão guardado segredo do estupro. A dor do fato é uma dor muito profunda, quase incurável.

Big little lies (HBO)

Com um elenco de estrelas, esta série tem todos os tipos de violência contra a mulher. A história é sobre um grupo de mulheres que parecem viver vidas normais na cidade Monterey (Califórnia), quando na verdade cada uma delas esconde pequenas grandes mentiras, que envolvem questões que vão desde traição até violência doméstica e abuso sexual. Tudo isso é contado ao mesmo tempo que o espectador tenta desvendar um caso de assassinato, anunciado nos primeiros segundos da trama.

Big little lies rendeu a Nicole Kidman, que interpreta Celeste Wright, prêmios no Emmy, no Globo de Ouro e no Screen Actors Guild. Em seu discurso ao receber o Emmy de Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para TV, Nicole Kidman declarou: “Quando você está atuando tem a chance de passar uma mensagem importante. Nós trouxemos à tona o abuso doméstico. Essa é uma doença complicada e traiçoeira. Ela existe muito mais do que nos permitimos notar e é cercada de vergonha e segredo, e com vocês me reconhecendo com esse prêmio, traz o problema à tona ainda mais”. Verdadeiramente, é uma doença, cercada de vergonha e segredo!

Euphoria (HBO)

Pode parecer uma série teen, mas aborda a questão da transgenia, estupro e drogas. Sempre digo que todos os pais de adolescentes devem assistir a esta série, que terá uma segunda temporada. O estupro envolve com o personagem Jules, uma jovem transexual que inicia uma relação on-line com um desconhecido – olha o perigo aí, pais! – e no primeiro encontro, após descobrir que seu contato tratava-se um homem casado de 46 anos, é violentamente abusada sexualmente

Para ver e refletir!

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