ENTREVISTA | ANA PAULA ARAÚJO LANÇA LIVRO E FALA COM A REVISTA AMORA

Por Deborah Peleias
Por Deborah Peleias

O tema do estupro é tão urgente que a jornalista Ana Paula Araújo lançou, em 2020, o livro Abusoa cultura do estupro no Brasil. O livro é resultado de quatro anos de pesquisas, viagens por todo o país e mais de uma centena de entrevistas com vítimas e seus familiares, criminosos, juízes, desembargadores, psiquiatras, psicólogos e outros especialistas. Ana Paula analisa casos que chocaram o Brasil, de anônimos e pessoas públicas, e outros tantos que, apesar de bárbaros, ficaram perdidos em meio ao constrangimento das vítimas e à lentidão da lei para mostrar como o estupro afeta toda a rede familiar e deixa marcas indestrutíveis na vida de quem o sofre.

A jornalista também acompanha todo o caminho das vítimas por justiça, analisa o processo de culpabilização delas pela sociedade e mostra como raramente a legislação do país, criada para dar todo o suporte necessário a quem sofre esse tipo de violência, é cumprida. “A intenção do livro é  alertar e fazer refletir sobre os casos de abuso sexual. A maioria deles acontece exatamente dentro de casa, contra crianças, e os criminosos são pessoas próximas e que têm uma relação de superioridade com a vítima, podem ser parentes mais velhos, vizinhos, amigos da família”, conta Ana Paula.

E com o objetivo de ampliar a discussão sobre a necessidade premente da sociedade civil se mobilizar para que haja políticas públicas realmente eficazes de penalização, proteção e acolhimento a mulheres e crianças que sofrem o crime de estupro, AMORA deu voz à jornalista e autora do livro.

Leia a seguir.

“Escolhi esse tema porque diz respeito a todas nós”

Assim como a maioria dos brasileiros, acompanho a trajetória da jornalista Ana Paula Araújo na Rede Globo. Quando soube do lançamento do seu livro Abuso – a cultura do estupro no Brasil, imediatamente comprei a versão e-book e me entreguei a sua leitura – um tanto pesada, não pela fluidez da escrita, mas pelos dados aterradores e pelas histórias doloridas narradas em suas páginas.

Então, decidi: preciso entrevistar a Ana Paula para, também como jornalista, desvendar o que ela sentiu ao pesquisar e redigir este livro-denúncia (pelo menos é desta forma que eu o avalio, um livro que denuncia a dor e os traumas vividos por tantas mulheres mundo afora). A obra trata do medo e da vergonha das vítimas, que muitas vezes são julgadas e culpabilizadas pela sociedade e pelo poder público, o que dificulta ainda mais as denúncias.

Ana Paula anunciou o lançamento do seu primeiro livro na semana em que o Brasil ficou chocado com o caso de uma menina de apenas 10 anos de idade que engravidou após ser seguidamente estuprada pelo tio, em agosto de 2020. E isso definitivamente aumenta a importância do livro Abuso para que a sociedade encontre caminhos para se não acabar, diminuir o crime de gênero no país.

Depois de três meses negociando com a assessora uma vaga na agenda da jornalista, finalmente em janeiro veio a resposta: Ana Paula concedeu a entrevista que eu tanto desejava… e que os leitores de AMORA leem em primeira mão agora…

“A maioria dos casos acontece dentro de casa, contra crianças, e os criminosos são pessoas próximas e que têm uma relação de superioridade, podem ser parentes mais velhos, vizinhos, amigos da família”, diz Ana Paula Araújo.

Conte-nos como surgiu a ideia da pesquisa sobre o abuso sexual no Brasil.

Comecei a pesquisar o tema há quatro anos. E acredito que a ideia tenha vindo do conjunto de todas nós, mulheres. O movimento feminino se fortaleceu nos últimos anos. Aumentaram as denúncias e, principalmente, a empatia. A tão falada rivalidade feminina vem cada vez mais dando espaço à compreensão, apoio e solidariedade. Escolhi esse tema porque diz respeito a todas nós.

Qual o seu sentimento após o trabalho de pesquisa e redação do livro, uma vez que você como ouvinte também vivenciou as histórias das mulheres?

É um conjunto de pensamentos e atitudes entranhados que acabam criando uma sociedade onde a violência sexual é normalizada. Inclui ideias equivocadas, como a de que a vítima pediu, de que homem é assim mesmo, que não é tão grave assim, de que é fácil esquecer. É reflexo de uma cultura que dita que o homem é superior, mais importante, que o desejo dele é que tem que ser levado em conta sempre. Começa desde cedo, quando ensinamos que meninos são fortes e meninas são delicadas, que meninos devem ser agressivos e meninas ficam na retaguarda deles, que tarefas de casa e filhos são função só das mulheres.

Em sua pesquisa, você encontrou alguma política pública que possa ser implantada Brasil afora para coibir a cultura do estupro?

Infelizmente, somos totalmente falhos na prevenção de crimes e na defesa de uma sociedade mais segura para mulheres e crianças. Encontrei uma boa iniciativa no Tribunal de Justiça de São Paulo, que reunia homens flagrados cometendo abusos no transporte público em palestras sobre igualdade e combate à violência de gênero. Dos participantes, nenhum foi pego reincidindo no crime. É um bom sinal, mas houve poucas turmas e o projeto foi descontinuado por falta de dinheiro.

Em sua opinião, faltam mais delegadas com a postura de Cristiane Bastos, citada em seu livro?

Delegadas e delegados deveriam ter uma formação em violência de gênero, para entender a gravidade da violência sexual e não deixar a sua atuação profissional ser contaminada pelos preconceitos que temos na sociedade como um todo. Além da falta de investigação dos crimes de estupro, não é raro uma vítima procurar uma delegacia e ser recebida com descrédito ou mesmo com deboche. Apenas 7% dos municípios brasileiros têm delegacia da mulher, que conta com um atendimento mais acolhedor. E mesmo assim, a maior concentração é pelo Sudeste, especialmente em São Paulo, o que significa que há verdadeiros desertos de atendimento à mulher em outras regiões do país.

Em relação à pergunta anterior, o que intriga quem lê o seu livro é a postura de juízes/juízas, delegados/delegadas, desembargadores/desembargadoras que não acreditam nas vítimas e provas. Por que isso acontece? A cultura do estupro está tão aprofundada na sociedade?

O Estado precisa dar condições para que as vítimas denunciem e sejam de fato acolhidas pelas instituições. Hoje, por medo, culpa ou vergonha, 90% delas não denunciam. A minoria que denuncia sai quase sempre sem a punição do culpado, seja pela investigação policial malfeita ou inexistente, seja pela Justiça que muitas vezes desconfia da vítima e não tem sensibilidade para compreender a dificuldade em recolher provas nesse tipo de crime.

O caso mais recente no país é o de Mari Ferrer. Você acredita que o movimento social por justiça terá um impacto positivo no futuro?

Leis não resolvem tudo e líderes não ditam as regras para todos, mas são parâmetros fortes que guiam e validam muitos dos comportamentos presentes na sociedade. O que se espera e deve ser cobrado das nossas autoridades em todas as esferas é a total intolerância com o crime e com o desrespeito. Nossa cultura é extremamente machista.

Sem punição e sem uma educação que combata a violência de gênero, não há solução. E essa educação tem que chegar com urgência aos profissionais que lidam com as vítimas e influenciam na vida delas, como nossos policiais, juízes, médicos e políticos.

Por fim, com a leitura do seu livro, cheguei à conclusão de que toda mulher um dia sofreu um tipo de abuso em sua vida. Qual a sua percepção sobre isso?

Não conheço uma mulher que não tenha passado por uma história de abuso sexual, seja mais ou menos grave. Piadinhas absurdas e assédio no transporte público, por exemplo, são algo que todas nós conhecemos bem. Podem parecer pouco, mas fazem parte de uma cultura de desvalorização da mulher que também está por trás dos casos mais graves de estupro. Precisamos em definitivo nos unir e falar sobre isso. Conhecimento, discussão, informação são a base para qualquer mudança. Quis deixar minha contribuição para todas nós e para as gerações futuras, como a da minha filha.

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