DEGUSTAÇÃO ÀS CEGAS | Mais do que do que os olhos podem ver

Por Diego Foca

Por Diego Foca   |  Sommelier Mero restaurante
Fotos
: Diego Ocanhas  |  Foccus Fotografia
Matéria publicada em 2018 na edição impressa da Revista AMORA

Quando abrimos uma garrafa de vinho e o colocamos em uma taça a primeira etapa da degustação sempre se inicia com a visão. Por meio da visão conseguimos identificar: as “lágrimas” que nos dá indícios sobre o álcool, a tonalidade da cor que nos comunica, na maioria das vezes, o tempo de vida do vinho, o brilho que deve existir, pois se o líquido estiver opaco, é muito provável que esteja oxidado, entre outras informações que a visão nos antecipa sobre algumas características do vinho. Em seguida, usamos o olfato, tato, paladar e até a audição, um verdadeiro misto de todos os sentidos.

Nas confrarias é muito comum acontecerem degustações às cegas, nas quais os confrades avaliam um ou mais vinhos sem saber nenhuma informação sobre eles, usando apenas as referências de suas memórias.

Diante desse modelo me surgiu uma ideia: que tal propor uma degustação de vinhos com de deficientes visuais? Que tal conferir como é a memória olfativa de quem não possui a visão? E foi isso que fizemos. Entrei em contato com o Centro-Dia de Referência para Pessoa com Deficiência, que é um serviço vinculado à Prefeitura de Rio Claro, que recebe subsídios da mesma por ser um serviço de proteção especial da Secretaria de Assistência Social, local em que fui recebido com muita atenção e profissionalismo pela coordenadora Rosângela Deliberali S. da Fonseca e sua equipe. A ideia foi apresentada e acolhida por elas. Posteriormente, fui apresentado aos portadores de deficiência visual (o Centro-Dia também atende portadores de outras deficiências).

O primeiro encontro foi muito surpreendente para mim, até musica ganhei em forma de carinho. Com autorização das famílias dos membros envolvidos nesse projeto, realizamos a degustação no Mero Restaurante e apliquei um exercício utilizado em meus cursos básicos de vinho que exercício consiste em cada participante apreciar o aroma em vários potinhos  com o objetivo de tentar adivinhar qual ingrediente contêm, revelando, assim, a memória olfativa. O exercício normalmente é muito divertido, porém desta vez foi especial. Confesso que tinha a intenção de ensinar algo a eles, mas que tolice a minha! Se alguém aprendeu algo naquele dia, esse alguém foi eu.

Nunca esquecerei o sorriso e a alegria estampados em seus rostos. A empolgação de estarem participando de algo inusitado para eles me fez refletir a sobre as minhas reclamações diárias. A vontade deles estarem naquele momento com tanta alegria me fez pensar sobre os dias que eu “não estou muito a fim”. Confesso que o assunto vinho deixou de ser a pauta principal do nosso encontro, houveram momentos em que até nos esquecemos dele. O fato de não poderem enxergar me fez questionar como eu não vejo tantas coisas diante de mim. A superação desses deficientes visuais me fez repensar minhas posturas diante de minhas limitações.

Meu muito obrigado aos meus novos amigos, que me ensinaram a viver com mais alegria com aquilo que tenho. Muito obrigado pela aula sobre vida, sobre superação, sobre alegria em viver. Muito obrigado por me ensinar que a deficiência de vocês não os definem, muito menos os limitam. Muito obrigado pelo presente artesanal produzido por suas próprias mãos e entregue para mim ao final da degustação; aliás, ele é utilizado todos os dias em minha casa.

Fui no encontro de vocês pensando em ensiná-los sobre memória olfativa, mas voltei com vocês na memória do meu coração. Um brinde especial a todos do Centro-Dia de Referência para Pessoa com Deficiência! Tim-tim.

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